quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

A dama misteriosa - Aguarela






A dama misteriosa dirige-se  para o Moulin Rouge e receosa de ser descoberta esconde-se na penumbra de um vão de escada.
A sala  iluminada por lâmpadas amarelas é palco de um par que, no centro, dança com movimentos rápidos.
A bailarina, num rodopio frenético,  deixa ver a roupa branca interior esvoaçante.
A música e as canções desafiam e  emprestam um clima brejeiro que nada convém à  condição social a que a dama pertence o  que a deixa aturdida mas  não indiferente.
A sua figura franzina e a palidez acentuada pela falta de pintura começou a tornar-se notada.
Confusa com tudo o que presenciou corre assustada para o exterior,  qual Cinderela, fugindo do seu príncipe encantado que, já animada pelo sonho transporta no coração. 





Henri Lautrec nasceu a 9 de Maio de 1863 da união de dois primos de primeiro grau; o conde Alphonse de Toulouse-Lautrec e a condessa Adèle.

Henri foi educado pela mãe que foi uma referência forte na sua formação. A assistência tão obcessiva devido à fragilidade da sua saúde deu origem, mais tarde, à tentativa de libertação do cordão umbilical o que talvez justifique a tendência independente de sair da alta sociedade para entrar na vida boémia da Belle Epoque.
Henri Lautrec tinha uma doença óssea hereditária em que nas quedas partiu as duas pernas que o deixaram diminuído fisicamente.
Em adulto media 1,52m. 
O talento artístico revelou-se durante a doença em que desenhava tudo o que lhe vinha à cabeça.
Em Paris conviveu com pintores da época: Eugéne Boch, François Gauzi e  Van Gogh a quem pintou um retrato a pastel.
Lautrec tornou-se famoso com a reprodução de gravuras e dos cartazes de grandes dimensões e  muitos deles representativos de cenas do Moulin Rouge.

Deixou cerca de 600 obras e é  lembrado como grande pintor do ser humano.
Tem obras espalhadas por vários museus mas a maioria estão em Albi no Museu Toulouse-Lautrec.
Faleceu a 9 de Setembro de 1901 com 36 anos incompletos e as suas últimas palavras foram para a mãe.






  

                                     
                                                                                              










domingo, 28 de janeiro de 2018

O Prémio

Nas traseiras da nossa casa em Alpiarça existia uma pequena quinta e eu gostava muito de ir para lá brincar com a filha da caseira.
Essa  amiga, de nome Albertina, era da minha idade e teríamos na altura 5 anos.
Tínhamos o péssimo hábito de brincar com os nossos brinquedos no rebordo do tanque que continha a água para a rega das hortas. Por diversas vezes fomos avisadas do perigo que corríamos mas a nossa desobediência era superior.
O burro, de olhos vendados mesmo ali ao lado, tirava à nora, a água do poço que entrava no tanque quase cheio. 
Nós estávamos sentadas na sua beira e, de repente, a Albertina cai à água. Muito assustada ela grita e estende-me o braço para eu o agarrar e puxar para cima.
Numa fracção de segundo e sem fazer qualquer raciocínio que me ocupasse tempo, corri para o palheiro que estava ao lado e retirei um pau comprido e robusto que arrastei até ao tanque. 
Ela bracejava aflita no meio da água e eu, do lado de fora, estendi-  lhe o varapau que ela agarrou.
Puxei com toda a força que os meus cinco anitos permitiram e ajudei-a a sair e a sentar-se no chão, não fosse cair outra vez na água.
Então corri à horta e gritei pela avó que muito aflita veio socorrer.
Para os adultos tinha sido um grande feito, para mim era uma confusão e uma vergonha ter que responder a tantas perguntas.
Fui tirar uma foto para figurar no jornal lá da terra e o jornalista propunha-se candidatar-me ao prémio Valle Flor.


Comecei a andar nervosa e a perder o apetite. Ainda estava traumatizada pelas constantes idas ao IPO e não queria sair de casa.
O meu pai entendeu o meu drama e nada avançou.
Recordarei sempre a simplicidade do amor dos meus pais e como essa lembrança me conforta.  

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Um sonho real.


Há momentos da vida que não se explicam, sentem-se ou simplesmente acontecem. Sonhos todos temos, uns concretizam-se, outros afloram e logo terminam, outros transformam-se em pesadelos.
A Autitv- Associação para a Universidade da Terceira Idade de Torres Vedras, nasceu do sonho de 4 professoras, a 4 de Junho de 2003.
A experiência conseguida através do encontro anual das professoras aposentadas iniciado por nós, e alvitrado no dia do meu almoço de aposentação e da minha colega Ana Ilda, trouxe-nos o desejo de criar um espaço de partilha de saberes e de convívio.
O meu entusiasmo era enorme mas o receio da aventura não era menor. 
Partir para o desconhecido e deixar para trás o conforto de não ter responsabilidades depois de uma vida já bem preenchida de actividade profissional era angustiante mas simultâneamente desafiante.
Era necessário dar o passo mas a insegurança era muita e ouvia constantemente:"vê no que te vais meter." Já estás esquecida do que passaste? Ainda não estás bem!"
Mas tinha que dar a resposta às minhas colegas e como sou de "Antes quebrar que torcer"continuei a sonhar com o projecto.
Naquela noite em Santa Cruz deitei-me e adormeci com o barulho do mar. 
Sobre a manhã semi-acordada pedi ao meu marido para escrever a frase premiada do meu sonho. 
A resposta não foi pronta e eu esqueci a bonita frase onírica.
Ficou apenas a frase desclassificada porque lhe tinha caído um borrão de tinta. Fiquei desalentada, a outra frase era tão bonita!
Li então o que ditei e fez-se luz no meu coracão e na minha mente.
A frase que perdeu o concurso era: "As boas obras são as pedras que formam o caminho da alma."
A resposta estava ali. Era uma missão a cumprir e eu tinha que fazer parte dela. 
No dia  seguinte  reunimo-nos e demos alma ao projecto que iniciou com cerca de 90 alunos e 160 sócios.
Torres Vedras tinha uma Universidade Sénior. 
Volvidos 15 anos e, com a colaboração de várias Direcções e de Órgãos Sociais que estoicamente  têm colaborado voluntáriamente a par com  professores, alunos e associados, hoje a AUTITV tem 1080 sócios, 420 alunos, 57 disciplinas e 84 turmas.
Bem-haja a todos, sem excepção. O sonho tornou-se realidade!
A minha vida tem sido mais preenchida e todos e todas que pela AUTITV passam, sentem com certeza o mesmo sentimento de felicidade pelos objectivos que alcançam nesta fase das suas vidas.


         
                                     DIRECÇÃO da AUTITV




                            ÓRGÃOS SOCIAIS da AUTITV

                               
                   

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Sonhos perdidos.


Aguarela


De Junho a Outubro alguns distritos de Portugal foram fustigados pela catástrofe dos incêndios.
Houve perdas de vida, cerca de 110 pessoas, algumas delas eram crianças que dolorosamente foram arrebatadas pelas chamas.
Foi um flagelo que não deixou ninguém indiferente. Casas destruídas, campos desertos, vidas abruptamente roubadas.
A instabilidade atmosférica com ventos fortes, trovoadas, e a passagem do furacão Ophélia que trouxe mais ventos, deixaram o território vulnerável mas houve outras razões que não deviam existir. A prevenção residual de limpeza das florestas e de outras estruturas, tão levianamente descuradas, deixaram campo aberto para a desolação criada pelos cerca de 500 mil hectares de área ardida.
Quantos sonhos de uma vida queimados num abrir e fechar de olhos e a que Portugal assistiu impotente e revoltado.
No ar ficou o inferno do calor, das cinzas e do fumo. Nos rostos, a tristeza do vazio e da revolta.



domingo, 21 de janeiro de 2018

A rua Forno do Tijolo



Em Lisboa, partilhávamos a casa com os meus padrinhos e a filha Liberta,  na Rua Forno do Tijolo, perto da Igreja dos Anjos. Esta casa era da Senhora D. Maria José da Conceição Costa, irmã de José Feliciano da Costa, Ministro do Trabalho, no tempo do Governo de Sidónio Pais.
O meu padrinho gostava de música e o irmão Aníbal Tapadinhas tocava e acompanhava alguns fadistas.
Recordo com saudade aquele prédio que entretanto  também foi demolido.
Tinha varandas de sacada em ferro forjado, alindadas com vasos de flores e plantas aromáticas para condimentar a açorda alentejana ou a sopa de poejos que eu detestava. 
Ver descer e içar o saco, preso na ponta da corda, onde o padeiro ou o leiteiro deixavam o pão e o leite, era para mim um divertimento. Estava sempre à espera que ficasse preso nas varandas dos vizinhos (o que por vezes acontecia) para lhes bater à porta e receber um rebuçado.


Lembro-me do eco dos pregões das varinas que traziam o peixe do mercado da Ribeira para ser vendido de porta a porta e da mulher da fava rica que a trazia, numa panela dentro do cesto, e que a vendia na escada, uma vez por semana.
Guardo ainda, com saudade, o cheiro do leite com café que saía das leitarias. Era único!
Passear pelas ruas e ouvir o tilintar dos eléctricos que no seu amarelo metálico passavam nos carris, era um deslumbramento!



Intrigada, ficava parada de boquita aberta a vê-los passar...
A lembrança dos cheiros e dos sabores, dos tons e dos sons recordam-me, com alguma nostalgia, aquela Lisboa de outros tempos que eu na inocência dos meus quatro anitos repetia com graça e orgulho: "Sou lisboeta, sou alfacinha!"

O Chiado era o ponto de encontro da cidade e o local preferido para as compras de Natal. Havia grandes armazéns e bonitas lojas mas ainda não existiam os Centros Comerciais.
Havia movimento nas ruas, mas ainda se sentia nos rostos o efeito da Segunda Guerra Mundial que terminara havia poucos anos. 
As senhoras usavam os fatos abaixo dos joelhos e embelezavam-se com chapéus e luvas. Senhora que se prezasse não vinha para a rua sem estes adornos. Lembro-me de mexer nas caixas redondas da D. Maria José e  da minha prima Liberta que nelas guardavam os chapéus de vários estilos dependendo da ocasião em que eram usados.
Nesta época falava-se do casamento da futura Rainha Isabel II de Inglaterra com o Príncipe Filipe de Edimburgo que, felizmente continuam vivos, e da morte de Evita Peron. A moda sofreu a influência desta primeira dama que foi adorada pelo povo da Argentina.
O meu mundo era o das bonecas de papelão ou de trapo, feitas pela minha mãe, e que eu vestia com as roupinhas que ela confeccionava para elas e para mim.

      





quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Outros tempos...

Era uma bébé muito chorona e não gostava de ter a fralda molhada. 
Naquele tempo não havia fraldas descartáveis e as mães tinham de as fazer num tecido confortável para o bébé. Usava-se um alfinete de dama para as prender o que de certo modo podia trazer riscos .
Por cima vestia-se o cueiro que chegava aos pés.
O vestuário era confeccionado pelas mães e avós. Os casaquinhos eram tricotados, com amor, pelas mãos habilidosas de minha mãe .
No meu tempo, as fotos eram escassas e apenas tenho algumas tiradas a partir dos nove meses. Os tempos eram outros e as prioridades também mas o amor e carinho que os meus pais tinham não era menor.
Comecei a andar com nove meses e como era muito curiosa corri alguns perigos.
Estava atenta a todos os movimentos dos adultos e perspicaz apoderava-me de objectos que, por vezes, não estavam ao meu alcance.
Assim, na casa dos meus avós , chupei cabeças de fósforos; algodão embebido no remédio para matar as formigas que estava escondido mas que não me escapou; cair do berço aos seis meses e rebolar pelos degraus e sair ilesa ou procurar os bichinhos na horta que em seguida metia na boca...
Era um sobressalto contínuo para a minha mãe.
                         
                      


                                                                   Com dois anos.

Naquele tempo não havia manuais de puericultura para ajudar os pais. Era a sabedoria popular e a ajuda dos familiares.
As mães tinham todo o tempo para se dedicarem aos fihos. A maioria não trabalhava para outrém. A família era uma célula e nela assentava toda a responsabilidade da sociabilização. O amor e o exemplo da família moldava o carácter da criança. O lar era a sua primeira escola, era o seu abrigo, era o seu aconchego. Havia diálogo, havia tempos para o tempo da criança. Não havia muitos brinquedos mas havia imaginação e criatividade que levava a um sentimento de plenitude. Havia renúncia mas não havia frustração.
O amor da Família preenchia qualquer vazio.
Tudo era tão simples que só ele bastava e, essa grata recordação, tem -me acompanhado e ajudado nos momentos menos bons.

Obrigada, meu Deus, pela família que tive!

S. Gonçalo


                                                            O meu registo de S. Gonçalo.

Nasci no dia 27 de Outubro, dia da celebração litúrgica de S. Gonçalo. É neste dia que se iniciam as festas da cidade de Torres Vedras que se prolongam até ao dia de S. Martinho, 11 de Novembro, feriado municipal.
S. Gonçalo nasceu em 1360, em Lagos e faleceu em 1422, em Torres Vedras. Os seus restos mortais encontram-se na Igreja de Nossa Senhora da Graça.
Viveu neste convento praticando o bem junto dos mais desfavorecidos. Na portaria do convento e claustros, existem belíssimos painéis de azulejos retratando a vida deste santo.
São-lhe atribuídos inúmeros milagres antes e depois da sua morte.
É patrono da cidade e do concelho de Torres Vedras desde 1495 e também é o patrono da cidade de Lagos.




domingo, 14 de janeiro de 2018

E chamaram-me Maria Manuela.






Naquela época diziam às crianças que vinham de Paris de avião ou no bico das cegonhas.
Também não havia ecografias para conhecer o sexo do bébé e a surpresa trazia sempre muita ansiedade. 


Assim, nasci menina, careca e gordinha nos meus quase 4 Kg e "obriguei" o meu pai a correr da Casa da Moeda, onde estava em serviço, até à Maternidade Dr. Alfredo da Costa para me conhecer.



A  Maternidade era, e é, um edifício público especializado em obstetrícia, localizado na zona central de Lisboa, na antiga freguesia de São Sebastião da Pedreira.
O seu nome é uma homenagem ao pioneiro de obstetrícia em Portugal, Manuel Vicente Alfredo da Costa.
O edifício foi construído sobre os alicerces de um templo.
Os terrenos foram doados pela Condessa de Carnide para a construção de uma igreja em homenagem a Nossa Senhora da Conceição.
Durante a guerra as obras estiveram paradas por falta de materiais, nomeadamente do ferro.
Foi inaugurada em Maio de 1932 e a 8 de Dezembro, nascia a primeira criança a que deram o nome de Maria da Conceição.
A partir de 1 de Março de 2012 está integrada no Centro Hospitalar Lisboa Central e continua a desempenhar um papel importante no nascimento das crianças.
Os meus cinco netos nasceram na Maternidade e a assistência foi competente e muito cuidada.

A pedido de minha mãe fiquei a chamar-me Maria Manuela, substituindo o de Gabriela que era o nome preferido da minha madrinha. Naquela época eram os padrinhos que escolhiam os nomes.
Fui baptizada na antiga Igreja de Arroios, reconstruída após o terramoto de 1755 e que, mais tarde em 1972, viria a ser substituída pela actual construção.  



                                                  Antiga Igreja de Arroios onde me baptizaram.

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Nesta década outras igrejas foram demolidas, como a da Conceição Nova na Rua Nova do Almada e a de Nossa Senhora do Socorro, destruída em 1949.





Os meus progenitores e o após guerra.


Estávamos em 1948 e embora a 2ª Grande Guerra Mundial tivesse terminado havia três anos, ainda se sentiam os seus efeitos nos rostos e nos corações das pessoas.
A fase era de mudança e surge neste ano bissexto a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Havia necessidade de aprender com os erros e de mudar comportamentos e mentalidades.
Falava-se de Churchill e de Péron, lamentava-se a morte do líder espiritual activista dos direitos indianos, Mahatma Gandhi que fora assassinado em Nova Dili.
Em Portugal vivia-se a República com Marechal Carmona e Salazar no Governo.
E foi na manhã de uma 4ª Feira deste ano de 1948, mais precisamente a 27 de Outubro que eu nasci.
Os meus pais Manuel e Rosária eram um casal jovem com 25 e 22 anos respectivamente.
Viveram e casaram na aldeia de Pinheiro Grande, aldeia pequena do Ribatejo e foram viver para Lisboa porque o meu pai tinha sido destacado para o Quartel do Carmo.
Era G.N.R. e exibia a sua farda com galhardia e a minha mãe morria de amores por ele.



Também neste ano de 1948 nasceram o nosso Eminente Cardeal Patriarca , Senhor Dom Manuel Clemente, em Torres Vedras e o Nosso Presidente da República Portuguesa, o Professor Doutor Marcelo Rebelo de Sousa, em Lisboa. 

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Tudo passa...




Tudo passa... Tudo é efémero! O que foi ontem já não é mais! E nós somos peças desta engrenagem que é o tempo.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Sol de Inverno



Caminhando num dia de Inverno com uns ténues raios de sol a esgueirarem-se por entre os ramos das árvores despidos de folhas, fui trauteando a canção "Sol de Inverno" de Simone de Oliveira que representou Portugal no Festival da Eurovisão em 1965.


Olhei as árvores nuas que pacientemente vão resistindo à passagem do tempo. Sofrem transformações, robustecem-se e com firmeza vão melhorando e embelezando a Natureza.


Por analogia pensei no meu pai.
Pensei no meu velhinho de 94 anos que resistindo a tantas vicissitudes continua a lutar para viver. Tenho aprendido muito com ele. A sua filosofia de vida é-me surpreendente.
Está acamado mas a sua cabeça leva-o a viajar aos locais que retém na sua memória. E como ele fica feliz quando nós o acompanhamos nessas divagações.    
Está no inverno da vida mas a vida ainda lhe traz algum fulgor porque o calor humano que ele sente no mimo que recebe, permite-  lhe ainda um testemunho de força como este: "Filha, ainda temos que saber aceitar e aproveitar aquilo que Deus nos quer dar."













         
 


                                            






É Natal! Boas Festas.


Santo Natal!




                                                            Presépio da minha lapinha




             Pórtico  sagrado  - Aguarela                 




É Natal ! Nasceu o Menino Jesus! -   Aguarela - O estábulo  


Natal da minha infância tão distante mas tão presente nas minhas memórias.
Busco no baú das recordações e revejo-me sentada na lareira alta da casa dos meus avós, no Ribatejo, a ouvir muito atenta as histórias que me contavam para alimentar a  curiosidade e ao mesmo tempo sossegar a inquietação provocada pela espera das prendas do Menino Jesus.
O lume crepitava e à luz do candeeiro a petróleo (não havia ainda electricidade no casal e na aldeia do Pinheiro Grande poucos a tinham), eu abria com esforço os olhos já pesados pelo sono e ouvia as histórias que o meu avô tão bem sabia contar. 
Cedo ia para a cama mas sem nunca esquecer o sapato bem engraxado na chaminé e de pedir a benção ao avô que respondia estendendo a mão que eu beijava: -" Deus te faça uma santinha".
Logo pela manhã espreitava a chaminé, algo receosa, não fosse o Menino Jesus ter-se esquecido da prenda.
E lá estavam os livros da colecção Formiguinha, os tachinhos e as panelinhas, a máquina de costura de lata ou a boneca de papelão. 
Era um encantamento. Naquela idade a  magia do Natal subsistia.
A família reunida, os doces da consoada, a partilha, os afectos, de manhã a missa de Natal com os fatos novos estreados.... Tudo era diferente, os cheiros, os sabores e até o frio era mais "frio"e o sol tinha mais brilho.