"Recordar é viver" - disse alguém e eu partilho do mesmo sentimento. Sou uma conservadora saudosista que se agarra como lapa aos momentos que contribuíram para marcar a minha personalidade.
Recentemente passei por terras ribatejanas e vieram-me à memória cenas da minha infância. Senti ternura pela menina que fui ao recordar as brincadeiras inocentes que me fizeram tão feliz.
Como eu gostaria que todas as crianças de hoje sentissem a alegria plena de poderem brincar em ambiente de tranquilidade e segurança!
Jogar à macaca e aos cinco cantinhos, correr pelos campos e levar o borreguinho à pastagem era tudo o que eu queria.
Ir até à vala de Alpiarça, na carroça da avó da Albertina, apanhar a erva para os coelhos, ver os pintos a sair da casca ou procurar no canavial os rizomas das canas para o lume, eram tarefas que eu gostava de desempenhar.
O tempo passou e chegou a idade de ir para a escola.
A minha mãe vestiu-me a bata branca que ela própria confeccionou e de pasta na mão e laçarote na cabeça, lá fui eu, pela sua mão para a escola.
Entrei na sala e sem chorar (a mãe tinha-me dito que era feio) fiquei com as outras meninas e a mãe saiu com o meu irmão.
Foi um dia muito importante para mim. Estava a iniciar uma vida social que me trazia novas aprendizagens e responsabilidades.
A professora chamava-se Amélia e já tinha muita idade. Vestia uma bata branca sobre a roupa preta e os seus muitos cabelos brancos e apanhados faziam-me lembrar a minha avó materna.
Não era muito risonha mas era meiga.
Usava uma cana da índia bem comprida que lhe conferia poder e até mais estatura, para tocar na cabeça ou nos ombros de quem estivesse distraída ou a conversar.
A escola ficava na rua principal de Alpiarça e era bastante iluminada e arejada.
Tinha carteiras antigas de madeira escura e tinteiros de porcelana, grandes armários e caixa métrica, tal qual como a escola onde anos mais tarde dei aulas.
Criei laços de amizade e brincava no recreio, com regras, até ao toque da campainha.
Aprendi ali a ler e a escrever sem dificuldade. Naquela época aprendia-se o abecedário de uma só vez e as letras eram escritas em cadernos de duas linhas para a letra ficar certa e bonita.
Também usávamos escrever na ardósia com o lápis de pedra.
Foi com tristeza que deixei esta escola. Ali fiz apenas a 1ª classe.
O meu pai tinha recebido transferência para o posto da cidade de Abrantes. Estávamos tão felizes e tínhamos que partir. Já tínhamos as nossas amizades e a partida era sempre dolorosa.
Era sempre uma aventura. O que iríamos encontrar?
O que importava era que estávamos juntos e a família bem unida o que nos trazia sempre muita tranquilidade.
Saudades iria ter da escola, das colegas e da professora que era minha amiga. Afinal nunca me tinha batido nem dado puxões de orelhas! Até me ensinou as contas de dividir que eram da 2ª classe...
Iria ter recordações das amigas da aldeia palafita e lembrar-me-ia de as ver chegar de barco à escola quando a vala inundava os campos. Era tão divertido!
Para trás ficavam os passeios ao jardim onde eu gostava tanto de brincar com as minhas amigas.
Aos domingos, íamos com os nossos melhores vestidos e laçarotes na cabeça, para ouvir a música que tocava no coreto e, comíamos a bolacha americana ou os pirolitos.
Também deixaria de ver os filmes do Joselito e da Marisol ou os desenhos animados do Walt Disney nas matinés de domingo.
A minha mãe dizia-me com convicção que na nova escola eu iria encontrar mais amigas o que me deixava mais serena.
Talvez por este motivo eu hoje gosto de falar com toda a gente.



