Nas traseiras da nossa casa em Alpiarça existia uma pequena quinta e eu gostava muito de ir para lá brincar com a filha da caseira.
Essa amiga, de nome Albertina, era da minha idade e teríamos na altura 5 anos.
Tínhamos o péssimo hábito de brincar com os nossos brinquedos no rebordo do tanque que continha a água para a rega das hortas. Por diversas vezes fomos avisadas do perigo que corríamos mas a nossa desobediência era superior.
O burro, de olhos vendados mesmo ali ao lado, tirava à nora, a água do poço que entrava no tanque quase cheio.
Nós estávamos sentadas na sua beira e, de repente, a Albertina cai à água. Muito assustada ela grita e estende-me o braço para eu o agarrar e puxar para cima.
Numa fracção de segundo e sem fazer qualquer raciocínio que me ocupasse tempo, corri para o palheiro que estava ao lado e retirei um pau comprido e robusto que arrastei até ao tanque.
Ela bracejava aflita no meio da água e eu, do lado de fora, estendi- lhe o varapau que ela agarrou.
Puxei com toda a força que os meus cinco anitos permitiram e ajudei-a a sair e a sentar-se no chão, não fosse cair outra vez na água.
Então corri à horta e gritei pela avó que muito aflita veio socorrer.
Para os adultos tinha sido um grande feito, para mim era uma confusão e uma vergonha ter que responder a tantas perguntas.
Fui tirar uma foto para figurar no jornal lá da terra e o jornalista propunha-se candidatar-me ao prémio Valle Flor.
Comecei a andar nervosa e a perder o apetite. Ainda estava traumatizada pelas constantes idas ao IPO e não queria sair de casa.
O meu pai entendeu o meu drama e nada avançou.
Recordarei sempre a simplicidade do amor dos meus pais e como essa lembrança me conforta.



