Em Lisboa, partilhávamos a casa com os meus padrinhos e a filha Liberta, na Rua Forno do Tijolo, perto da Igreja dos Anjos. Esta casa era da Senhora D. Maria José da Conceição Costa, irmã de José Feliciano da Costa, Ministro do Trabalho, no tempo do Governo de Sidónio Pais.
O meu padrinho gostava de música e o irmão Aníbal Tapadinhas tocava e acompanhava alguns fadistas.
Recordo com saudade aquele prédio que entretanto também foi demolido.
Tinha varandas de sacada em ferro forjado, alindadas com vasos de flores e plantas aromáticas para condimentar a açorda alentejana ou a sopa de poejos que eu detestava.
Ver descer e içar o saco, preso na ponta da corda, onde o padeiro ou o leiteiro deixavam o pão e o leite, era para mim um divertimento. Estava sempre à espera que ficasse preso nas varandas dos vizinhos (o que por vezes acontecia) para lhes bater à porta e receber um rebuçado.
Lembro-me do eco dos pregões das varinas que traziam o peixe do mercado da Ribeira para ser vendido de porta a porta e da mulher da fava rica que a trazia, numa panela dentro do cesto, e que a vendia na escada, uma vez por semana.
Guardo ainda, com saudade, o cheiro do leite com café que saía das leitarias. Era único!
Passear pelas ruas e ouvir o tilintar dos eléctricos que no seu amarelo metálico passavam nos carris, era um deslumbramento!
Intrigada, ficava parada de boquita aberta a vê-los passar...
A lembrança dos cheiros e dos sabores, dos tons e dos sons recordam-me, com alguma nostalgia, aquela Lisboa de outros tempos que eu na inocência dos meus quatro anitos repetia com graça e orgulho: "Sou lisboeta, sou alfacinha!"
O Chiado era o ponto de encontro da cidade e o local preferido para as compras de Natal. Havia grandes armazéns e bonitas lojas mas ainda não existiam os Centros Comerciais.
Havia movimento nas ruas, mas ainda se sentia nos rostos o efeito da Segunda Guerra Mundial que terminara havia poucos anos.
As senhoras usavam os fatos abaixo dos joelhos e embelezavam-se com chapéus e luvas. Senhora que se prezasse não vinha para a rua sem estes adornos. Lembro-me de mexer nas caixas redondas da D. Maria José e da minha prima Liberta que nelas guardavam os chapéus de vários estilos dependendo da ocasião em que eram usados.
Nesta época falava-se do casamento da futura Rainha Isabel II de Inglaterra com o Príncipe Filipe de Edimburgo que, felizmente continuam vivos, e da morte de Evita Peron. A moda sofreu a influência desta primeira dama que foi adorada pelo povo da Argentina.As senhoras usavam os fatos abaixo dos joelhos e embelezavam-se com chapéus e luvas. Senhora que se prezasse não vinha para a rua sem estes adornos. Lembro-me de mexer nas caixas redondas da D. Maria José e da minha prima Liberta que nelas guardavam os chapéus de vários estilos dependendo da ocasião em que eram usados.
O meu mundo era o das bonecas de papelão ou de trapo, feitas pela minha mãe, e que eu vestia com as roupinhas que ela confeccionava para elas e para mim.



