domingo, 21 de janeiro de 2018

A rua Forno do Tijolo



Em Lisboa, partilhávamos a casa com os meus padrinhos e a filha Liberta,  na Rua Forno do Tijolo, perto da Igreja dos Anjos. Esta casa era da Senhora D. Maria José da Conceição Costa, irmã de José Feliciano da Costa, Ministro do Trabalho, no tempo do Governo de Sidónio Pais.
O meu padrinho gostava de música e o irmão Aníbal Tapadinhas tocava e acompanhava alguns fadistas.
Recordo com saudade aquele prédio que entretanto  também foi demolido.
Tinha varandas de sacada em ferro forjado, alindadas com vasos de flores e plantas aromáticas para condimentar a açorda alentejana ou a sopa de poejos que eu detestava. 
Ver descer e içar o saco, preso na ponta da corda, onde o padeiro ou o leiteiro deixavam o pão e o leite, era para mim um divertimento. Estava sempre à espera que ficasse preso nas varandas dos vizinhos (o que por vezes acontecia) para lhes bater à porta e receber um rebuçado.


Lembro-me do eco dos pregões das varinas que traziam o peixe do mercado da Ribeira para ser vendido de porta a porta e da mulher da fava rica que a trazia, numa panela dentro do cesto, e que a vendia na escada, uma vez por semana.
Guardo ainda, com saudade, o cheiro do leite com café que saía das leitarias. Era único!
Passear pelas ruas e ouvir o tilintar dos eléctricos que no seu amarelo metálico passavam nos carris, era um deslumbramento!



Intrigada, ficava parada de boquita aberta a vê-los passar...
A lembrança dos cheiros e dos sabores, dos tons e dos sons recordam-me, com alguma nostalgia, aquela Lisboa de outros tempos que eu na inocência dos meus quatro anitos repetia com graça e orgulho: "Sou lisboeta, sou alfacinha!"

O Chiado era o ponto de encontro da cidade e o local preferido para as compras de Natal. Havia grandes armazéns e bonitas lojas mas ainda não existiam os Centros Comerciais.
Havia movimento nas ruas, mas ainda se sentia nos rostos o efeito da Segunda Guerra Mundial que terminara havia poucos anos. 
As senhoras usavam os fatos abaixo dos joelhos e embelezavam-se com chapéus e luvas. Senhora que se prezasse não vinha para a rua sem estes adornos. Lembro-me de mexer nas caixas redondas da D. Maria José e  da minha prima Liberta que nelas guardavam os chapéus de vários estilos dependendo da ocasião em que eram usados.
Nesta época falava-se do casamento da futura Rainha Isabel II de Inglaterra com o Príncipe Filipe de Edimburgo que, felizmente continuam vivos, e da morte de Evita Peron. A moda sofreu a influência desta primeira dama que foi adorada pelo povo da Argentina.
O meu mundo era o das bonecas de papelão ou de trapo, feitas pela minha mãe, e que eu vestia com as roupinhas que ela confeccionava para elas e para mim.

      





quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Outros tempos...

Era uma bébé muito chorona e não gostava de ter a fralda molhada. 
Naquele tempo não havia fraldas descartáveis e as mães tinham de as fazer num tecido confortável para o bébé. Usava-se um alfinete de dama para as prender o que de certo modo podia trazer riscos .
Por cima vestia-se o cueiro que chegava aos pés.
O vestuário era confeccionado pelas mães e avós. Os casaquinhos eram tricotados, com amor, pelas mãos habilidosas de minha mãe .
No meu tempo, as fotos eram escassas e apenas tenho algumas tiradas a partir dos nove meses. Os tempos eram outros e as prioridades também mas o amor e carinho que os meus pais tinham não era menor.
Comecei a andar com nove meses e como era muito curiosa corri alguns perigos.
Estava atenta a todos os movimentos dos adultos e perspicaz apoderava-me de objectos que, por vezes, não estavam ao meu alcance.
Assim, na casa dos meus avós , chupei cabeças de fósforos; algodão embebido no remédio para matar as formigas que estava escondido mas que não me escapou; cair do berço aos seis meses e rebolar pelos degraus e sair ilesa ou procurar os bichinhos na horta que em seguida metia na boca...
Era um sobressalto contínuo para a minha mãe.
                         
                      


                                                                   Com dois anos.

Naquele tempo não havia manuais de puericultura para ajudar os pais. Era a sabedoria popular e a ajuda dos familiares.
As mães tinham todo o tempo para se dedicarem aos fihos. A maioria não trabalhava para outrém. A família era uma célula e nela assentava toda a responsabilidade da sociabilização. O amor e o exemplo da família moldava o carácter da criança. O lar era a sua primeira escola, era o seu abrigo, era o seu aconchego. Havia diálogo, havia tempos para o tempo da criança. Não havia muitos brinquedos mas havia imaginação e criatividade que levava a um sentimento de plenitude. Havia renúncia mas não havia frustração.
O amor da Família preenchia qualquer vazio.
Tudo era tão simples que só ele bastava e, essa grata recordação, tem -me acompanhado e ajudado nos momentos menos bons.

Obrigada, meu Deus, pela família que tive!

S. Gonçalo


                                                            O meu registo de S. Gonçalo.

Nasci no dia 27 de Outubro, dia da celebração litúrgica de S. Gonçalo. É neste dia que se iniciam as festas da cidade de Torres Vedras que se prolongam até ao dia de S. Martinho, 11 de Novembro, feriado municipal.
S. Gonçalo nasceu em 1360, em Lagos e faleceu em 1422, em Torres Vedras. Os seus restos mortais encontram-se na Igreja de Nossa Senhora da Graça.
Viveu neste convento praticando o bem junto dos mais desfavorecidos. Na portaria do convento e claustros, existem belíssimos painéis de azulejos retratando a vida deste santo.
São-lhe atribuídos inúmeros milagres antes e depois da sua morte.
É patrono da cidade e do concelho de Torres Vedras desde 1495 e também é o patrono da cidade de Lagos.




domingo, 14 de janeiro de 2018

E chamaram-me Maria Manuela.






Naquela época diziam às crianças que vinham de Paris de avião ou no bico das cegonhas.
Também não havia ecografias para conhecer o sexo do bébé e a surpresa trazia sempre muita ansiedade. 


Assim, nasci menina, careca e gordinha nos meus quase 4 Kg e "obriguei" o meu pai a correr da Casa da Moeda, onde estava em serviço, até à Maternidade Dr. Alfredo da Costa para me conhecer.



A  Maternidade era, e é, um edifício público especializado em obstetrícia, localizado na zona central de Lisboa, na antiga freguesia de São Sebastião da Pedreira.
O seu nome é uma homenagem ao pioneiro de obstetrícia em Portugal, Manuel Vicente Alfredo da Costa.
O edifício foi construído sobre os alicerces de um templo.
Os terrenos foram doados pela Condessa de Carnide para a construção de uma igreja em homenagem a Nossa Senhora da Conceição.
Durante a guerra as obras estiveram paradas por falta de materiais, nomeadamente do ferro.
Foi inaugurada em Maio de 1932 e a 8 de Dezembro, nascia a primeira criança a que deram o nome de Maria da Conceição.
A partir de 1 de Março de 2012 está integrada no Centro Hospitalar Lisboa Central e continua a desempenhar um papel importante no nascimento das crianças.
Os meus cinco netos nasceram na Maternidade e a assistência foi competente e muito cuidada.

A pedido de minha mãe fiquei a chamar-me Maria Manuela, substituindo o de Gabriela que era o nome preferido da minha madrinha. Naquela época eram os padrinhos que escolhiam os nomes.
Fui baptizada na antiga Igreja de Arroios, reconstruída após o terramoto de 1755 e que, mais tarde em 1972, viria a ser substituída pela actual construção.  



                                                  Antiga Igreja de Arroios onde me baptizaram.

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Nesta década outras igrejas foram demolidas, como a da Conceição Nova na Rua Nova do Almada e a de Nossa Senhora do Socorro, destruída em 1949.





Os meus progenitores e o após guerra.


Estávamos em 1948 e embora a 2ª Grande Guerra Mundial tivesse terminado havia três anos, ainda se sentiam os seus efeitos nos rostos e nos corações das pessoas.
A fase era de mudança e surge neste ano bissexto a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Havia necessidade de aprender com os erros e de mudar comportamentos e mentalidades.
Falava-se de Churchill e de Péron, lamentava-se a morte do líder espiritual activista dos direitos indianos, Mahatma Gandhi que fora assassinado em Nova Dili.
Em Portugal vivia-se a República com Marechal Carmona e Salazar no Governo.
E foi na manhã de uma 4ª Feira deste ano de 1948, mais precisamente a 27 de Outubro que eu nasci.
Os meus pais Manuel e Rosária eram um casal jovem com 25 e 22 anos respectivamente.
Viveram e casaram na aldeia de Pinheiro Grande, aldeia pequena do Ribatejo e foram viver para Lisboa porque o meu pai tinha sido destacado para o Quartel do Carmo.
Era G.N.R. e exibia a sua farda com galhardia e a minha mãe morria de amores por ele.



Também neste ano de 1948 nasceram o nosso Eminente Cardeal Patriarca , Senhor Dom Manuel Clemente, em Torres Vedras e o Nosso Presidente da República Portuguesa, o Professor Doutor Marcelo Rebelo de Sousa, em Lisboa. 

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Tudo passa...




Tudo passa... Tudo é efémero! O que foi ontem já não é mais! E nós somos peças desta engrenagem que é o tempo.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Sol de Inverno



Caminhando num dia de Inverno com uns ténues raios de sol a esgueirarem-se por entre os ramos das árvores despidos de folhas, fui trauteando a canção "Sol de Inverno" de Simone de Oliveira que representou Portugal no Festival da Eurovisão em 1965.


Olhei as árvores nuas que pacientemente vão resistindo à passagem do tempo. Sofrem transformações, robustecem-se e com firmeza vão melhorando e embelezando a Natureza.


Por analogia pensei no meu pai.
Pensei no meu velhinho de 94 anos que resistindo a tantas vicissitudes continua a lutar para viver. Tenho aprendido muito com ele. A sua filosofia de vida é-me surpreendente.
Está acamado mas a sua cabeça leva-o a viajar aos locais que retém na sua memória. E como ele fica feliz quando nós o acompanhamos nessas divagações.    
Está no inverno da vida mas a vida ainda lhe traz algum fulgor porque o calor humano que ele sente no mimo que recebe, permite-  lhe ainda um testemunho de força como este: "Filha, ainda temos que saber aceitar e aproveitar aquilo que Deus nos quer dar."