Com seis anos gostava de pegar nos lápis de cor que recebia pelo Natal e desenhava tudo o que a minha pouca idade me permitia.
Quando viajava de camioneta para a aldeia onde viviam os meus avós, com o dedito contornava os montes, desenhava as árvores e seguia o esvoaçar dos pássaros.
Na areia do quintal ou na praia com um pauzito na mão, ou com uma concha, rabiscava traços que identificava com imagens que ia registando na memória.
O tempo passou e, já na escola, sentia necessidade de ilustrar tudo o que escrevia.
Como professora, penso que incuti nos meus alunos o gosto pelo belo, levando-os a apreciar a natureza e a transmitirem para o papel os traços e as cores.
Antes de me aposentar adoeci e a tristeza que em menina, muitas vezes me assaltava voltou.
Conheci uma médica que me incentivou a pintar. Naquele dia olhou-me com os seus grandes olhos cor de violeta e pediu-me que lhe pintasse qualquer coisa para lhe oferecer. Fiquei pasmada com o pedido feito com tanta veemência e ao mesmo tempo receosa de não conseguir corresponder à confiança que parecia depositar nas minhas fracas capacidades.
Levei dias a tentar descortinar o que lhe havia de levar. Procurei alguns trabalhos que tinha pintado através de postais mas nada me agradava. Um dia, resolvi comprar um estojo com tintas e pincéis e aventurei-me.
No dia da consulta levei alguns trabalhos para escolha. A doutora olhou, voltou a olhar e decidida disse: "Fico com este".
Era uma bailarina com sapatinhos de ballet e de vestido que parecia esvoaçar, pintada de cores suaves mas alegres, cheias de luz, como só a aguarela consegue fazer transparecer.
Admirou-me a escolha até porque o castelo de Almourol ou o de Lisboa pareciam-me mais perfeitos.
Aquela bailarina tinha os braços pequeninos, desproporcionados em relação ao corpo. Não entendi...
-Doutora, repare nos braços, não estão pequenos?
-Mas, minha filha, desenhou umas pequenas asas. Cortaram-lhe os braços mas tem asas para voar.
Deixe de pintar castelos, não se esconda, não se feche. Olhe à sua volta e pinte ...
A partir daí comecei a pintar...
Homenagem singela a uma grande Senhora - Drª Gracinda de Jesus Silva que já partiu.