quarta-feira, 25 de abril de 2018

A primeira escola.


"Recordar é viver" - disse alguém e eu partilho do mesmo sentimento. Sou uma conservadora saudosista que se agarra como lapa aos momentos que contribuíram para marcar a minha personalidade.
Recentemente passei por terras ribatejanas e vieram-me à memória cenas da minha infância. Senti ternura pela menina que fui ao recordar as brincadeiras inocentes que me fizeram tão feliz. 
Como eu gostaria que todas as crianças de hoje sentissem a alegria plena de poderem brincar em ambiente de tranquilidade e segurança!
Jogar à macaca e aos cinco cantinhos, correr pelos campos e levar o borreguinho à pastagem era tudo o que eu queria. 
Ir até à vala de Alpiarça, na carroça da avó da Albertina, apanhar a erva para os coelhos, ver os pintos a sair da casca ou procurar no canavial os rizomas das canas para o lume, eram tarefas que eu gostava de desempenhar.
O tempo passou e chegou a idade de ir para a escola.
A minha mãe vestiu-me a bata branca que ela própria confeccionou e de pasta na mão e laçarote na cabeça, lá fui eu, pela sua mão para a escola.
Entrei na sala e sem chorar (a mãe tinha-me dito que era feio) fiquei com as outras meninas e a mãe saiu com o meu irmão.
Foi um dia muito importante para mim. Estava a iniciar uma vida social que me trazia novas aprendizagens e responsabilidades. 

 


A professora chamava-se Amélia e já tinha muita idade. Vestia uma bata branca sobre a roupa preta e os seus muitos cabelos brancos e apanhados faziam-me lembrar a minha avó materna.
Não era muito risonha mas era meiga.
Usava uma cana da índia bem comprida que lhe conferia poder e até mais estatura, para tocar na cabeça ou nos ombros de quem estivesse distraída ou a conversar.
A escola ficava na rua principal de Alpiarça e era bastante iluminada e arejada. 
Tinha carteiras antigas de madeira escura e tinteiros de porcelana, grandes armários e caixa métrica, tal qual como a escola onde anos mais tarde dei aulas.
Criei laços de amizade e brincava no recreio, com regras, até ao toque da campainha.
Aprendi ali a ler e a escrever sem dificuldade. Naquela época aprendia-se o abecedário de uma só vez e as letras eram escritas em cadernos de duas linhas para a letra ficar certa e bonita.
Também usávamos escrever na ardósia com o lápis de pedra.
Foi com tristeza que deixei esta escola. Ali fiz apenas a 1ª classe. 
O meu pai tinha recebido transferência para o posto da cidade de Abrantes. Estávamos tão felizes e tínhamos que partir. Já tínhamos as nossas amizades e a partida era sempre dolorosa.
Era sempre uma aventura. O que iríamos encontrar?
O que importava era que estávamos juntos e a família bem unida o que nos trazia sempre muita tranquilidade.
Saudades iria ter da escola, das colegas e da professora que era minha amiga. Afinal nunca me tinha batido nem dado puxões de orelhas! Até me ensinou as contas de dividir que eram da 2ª classe...
Iria ter recordações das amigas da aldeia palafita e lembrar-me-ia de as ver chegar de barco à escola quando a vala inundava os campos. Era tão divertido! 





Para trás ficavam os passeios ao jardim onde eu gostava tanto de brincar com as minhas amigas.
Aos domingos, íamos com os nossos melhores vestidos e laçarotes na cabeça, para ouvir a música que tocava no coreto e, comíamos a bolacha americana ou os pirolitos.
Também deixaria de ver os filmes do Joselito e da Marisol ou os desenhos animados do Walt Disney nas matinés de domingo.
A minha mãe dizia-me com convicção que na nova escola eu iria encontrar mais amigas o que me deixava mais serena.
Talvez por este motivo eu hoje gosto de falar com toda a gente.

terça-feira, 10 de abril de 2018

Metamorfose - Aguarela








                                            Metamorfose
                                                                         (Aguarela)


Gosto de ver os campos na Primavera.
A profusão de cores que se misturam, atraem o meu olhar já cansado das paisagens cinzentas e frias do Inverno. 
Há uma mudança e uma transformação na Natureza que nos deixam mais libertos e felizes ... como se fossemos um outro ser. 
Os nossos  estados de espírito vão-se metamorfoseando e levam-nos a apreciar com outros olhos o que de belo existe à nossa volta.
É a lagarta que se transforma, no seu casulo, em crisálida e que ao eclodir sai numa maravilhosa borboleta branca ou colorida.
São os girinos, seres aquáticos que na sua metamorfose vão perdendo a cauda e as brânquias para surgirem sapos ou rãs que nos surpreendem com  saltos acrobáticos da terra para a água do charco. 
São as sementes que escondidas sob a terra germinam e vão dando os seus frutos.
São as árvores que despidas se cobrem de folhas e se enfeitam de lindas e pequenas flores que serão deliciosos frutos. 
Na Primavera, assiste-se a uma explosão total de Vida!
A mãe Natureza é pródiga e acaricia-nos com tanta beleza e, como o Homem lhe é tão ingrato...
A Primavera de 2018 está ainda a hibernar mas quando chegar o calor do Sol, ela despertará triunfante de luz e cor. É só aguardar com paciência e carinho.
  

terça-feira, 3 de abril de 2018

Óbidos na Páscoa.









                                Muralhas do castelo de Óbidos






Óbidos, típica vila portuguesa do distrito de Leiria, foi conquistada aos Mouros por D.Afonso Henriques, em 1148 e recebeu a primeira Carta de Foral em 1195,  no reinado  de D.  Sancho I.

Fez também parte do dote de inúmeras rainhas. O rei D. Dinis ofereceu-a a sua esposa , a rainha D. Isabel.
Em 2007, o castelo de Óbidos, no Concurso das Sete Maravilhas de Portugal foi declarado o 2º dos sete monumentos mais relevantes  do património arquitectónico português.
Em 2015, a Unesco declarou-a cidade Literária fazendo parte do programa da Rede de cidades criativas.
Óbidos pelo Natal transforma-se e reveste-se da magia da quadra que encanta a criançada e até os mais velhos se deixam embalar no sonho.
Também na Festa Medieval regressa às origens, experienciando as vivências próprias da época.
No Festival do Chocolate, com os eventos criativos, em que o chocolate é rei, despertam o interesse das crianças
Nas noites quentes de Verão poder-se-ão assistir às Temporadas de Música clássica Barroca, de Cravo e até ao Festival de Ópera. 




Pela Páscoa há uma programação muito direccionada para as celebrações religiosas e abrem-se aos visitantes, as portas das igrejas e os Passos  da Via Sacra cheios de simbolismo.





31 de Março, dia em que festejaríamos os 91 anos de minha mãe, se ela estivesse entre nós, resolvi ir até Óbidos.



Passei pelo Pórtico e fui logo invadida pela música do acordeão que anunciava festa e júbilo sem agredir a sensibilidade dos sentidos.






Embrenhei-me entre a muldidão de estrangeiros, sobretudo espanhóis que gostam de passar a Semana Santa no nosso país e caminhei pelas ruas estreitas desta típica vila, num dia de sol e  de temperatura amena .
Senti-me bem. Invadiu-me a paz de espírito que  precisava sentir e a necessidade da ausência de tudo, ficando, apenas e só, comigo.  



         














           


Entrei na Igreja de S. Pedro e na Igreja Matriz de Santa Maria e apreciei o maravilhoso retábulo do altar-mor.  
Nas capelas laterais estavam obras de Josefa de Óbidos, pintora de referência  do século XVII.



    



Continuei caminhando pelo labirinto de ruas com janelas floridas e  pequenas lojas com artesanato exposto e onde os turistas entravam para comprar alguma recordação, ou provar a típica ginjinha de Óbidos, em copo de chocolate.

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Estava na hora do regresso a casa mas a minha disposição era plena.








domingo, 1 de abril de 2018

Feliz e Santa Páscoa




Para os Cristãos, Jesus Cristo morreu na Cruz para nos salvar e ressuscitou ao terceiro dia, na Páscoa da Ressurreição. Aleluia!
 Ele venceu a morte. Jesus está vivo! Jesus está no meio de nós. 





 

                                              Testemunho



Esta aguarela foi pintada por mim no ano de 2001, precisamente numa tarde em que chovia torrencialmente.
Através dos vidros da janela eu observava a chuva que caía em fortes bátegas na estrada e o seu ruído levou-me a ficar ali expectante.
Lá fora, a rua estava deserta e, apenas vejo passar de cabeça baixa, de capuz na cabeça e de mãos nos bolsos, um jovem de ar abatido. 
Ele caminhava indiferente à chuva que o molhava até aos ossos. 
O semblante dele era tão triste e a postura tão caída que me deixou condoída até ao mais profundo do meu ser, e exclamei:
-Meu Deus vai ali um Cristo vivo!
Reconheci o miúdo e recordei o sofrimento dele e da família.
A impressão causada foi tão forte que me dispus a pintar aquele momento.
Já se passaram 17 anos mas ainda recordo a alegria e o respeito que senti quando encaminhava as tintas, nas pinceladas quase subtis, com receio de estragar a aguarela.
A minha sensibilidade foi tão forte que a deixei transparecer ali como um testemunho.
Não me senti digna de ficar com a obra e para o meu sentimento era importante  oferecê-la ao jovem.
Por razões várias, não foi possível mas fiquei sempre com a sensação de que não me pertencia.
O quadro foi exposto algumas vezes e vi o interesse que ele despertava nas pessoas mas nunca o vendi. Resolvi oferecê-lo a alguém  que fosse clérigo; e assim o fiz.
Sinto alguma nostalgia por ter deixado de ter tempo para pintar mas com a criação da Universidade Sénior "pinto outros quadros" que me têm preenchido pelo aspecto humano e social que carregam nas suas "pinceladas" e que afinal também fazem parte do meu percurso enquanto ser que caminha.






sexta-feira, 30 de março de 2018


                                                                Menina Mulher




O sonho e a realidade.



Nos momentos fugazes em que nos sentimos impelidos ou projectados para outras dimensões do irreal; podemo-nos sentir personagens felizes, ou não, dependentes sempre da perspectiva das nossas ambições.

As crianças, especialmente do sexo feminino, personalizam-se como princesas e os familiares, alimentam, às vezes, essa necessidade ou vontade de passar para o outro lado do "faz de conta". 
Afinal, com tão pouco se faz a felicidade de uma criança e ainda é possível sonhar.
Mas mesmo no imaginário infantil, nem tudo é cor-de-rosa, também se luta com a bruxa ou a fada má.
A diferença no mundo da fantasia é que tudo é possível e acaba por terminar bem quando aparece algum príncipe encantado, ou a fada boa que com toques de magia transforma o mal em bem. 
Na vida real, nem sempre é assim, nas voltas e contravoltas a que a vida nos obriga, não podemos deixar de lutar e ser  fortes para não deixar escapar  a criança que há em nós.
O truque é olharmos com os seus olhos para as coisas simples da vida e caminharmos com ela, à procura do sonho!

quinta-feira, 29 de março de 2018

Renoir e o impressionismo

Pierre-Auguste Renoir nasceu  em Limoges, França, a 25 de Fevereiro de 1841
Durante um período da sua adolescência tornou-se aprendiz de pintura em porcelana.
Copiava desenhos para decorar pratos e outras louças e usava todo o tipo de pintura decorativa, o que lhe permitiu angariar algum dinheiro para entrar na École de Beaux-Artes.
A sua forte tendência para desenhar levou-o a imitar  quadros pendurados no Louvre.
Fez amizades com Claude Monet e, mais tarde, através deste, com Pissarro e Paul Cézanne
Entre 1870 e 1883 entra no seu período impressionista.






Para os impressionistas era muito importante pintar no exterior pela interpretação das cores, pelos contrastes de luz e sombra, do colorido e dos vários cambiantes que surgiam  de acordo com a luz e a hora do dia em que pintavam.
Entre 1884 e 1887, Renoir entrou num período de quase rotura com o impressionismo.
Entretanto, a sua pintura vai-se modificando lentamente. A figura feminina ganha dimensão e pinta com frequência a figura da esposa e do filho que nasceu tardiamente.
Os seus trabalhos são reconhecidos o que lhe permite ter uma vida desafogada.
Após uma exposição, um quadro seu foi comprado pelo Louvre o que lhe trouxe mais notoriedade.
Surgiu-lhe uma doença reumática que o atacou durante anos e as dores quase insuportáveis condicionavam-no. Chegou a pintar com os pincéis amarrados entre os dedos, nas mãos ligadas.
Veio a falecer em 3 de Dezembro de 1919 acometido de uma pneumonia.
Foi classificado como o pintor da Luz, da Felicidade e da Harmonia e um dos mais famosos pintores do movimento impressionista.
Produziu cerca de 6000 trabalhos.
"Le Moulin de la Galette", óleo sobre tela que se encontra no Musée d´Orsay em Paris, é o marco da pintura impressionista.